FliParaíba evoca literatura como pertencimento

por Assessoria de Imprensa


João Pessoa* — O segundo dia do FliParaíba firmou o festival como um espaço de escuta ativa. Pela manhã, a mesa “A Língua como Território de Cidadania” abriu os debates com Silviano Santiago, José Manuel Diogo e Aline Cardoso, abordando questões sobre pertencimento, identidade e o papel da linguagem na formação democrática, mediada pelo crítico de literatura e jornalista William Costa.

Representando a Paraíba, Aline Cardoso afirma que, embora a revolução tecnológica seja usada para a repressão de minorias, a palavra é território de pertencimento. “Ao erguer a voz eu não só me comunico, eu me coloco no mundo. A poesia amplifica a voz daqueles que foram marginalizados. Há 136 anos, eu jamais estaria neste espaço falando. Represento minhas ancestrais e todas as mulheres que resistem nesse território. A poesia é uma forma de existir”, declara. “A língua nasce no chão onde o povo pisa, está no sotaque e se reinventa todo dia. A palavra está viva.”

Citando o artigo primeiro da Constituição, que garante que “todo poder pertence ao povo”, Aline destaca a disputa de espaço das mulheres negras e a luta constante contra estruturas que desejam as quebrar. “Por isso, quando falamos, reescrevemos o mundo. Pois, assim, também somos dignas de ser felizes. Nossa escrita insubmissa é um gesto poético, político e revolucionário”, diz.

Ecoando Gloria Anzaldúa, Aline apresenta a escrita como prática de fricção e desobediência, destacando que a autora a definia como um “anticoagulante” capaz de romper a passividade e exigir que quem escreve se entregue por completo. “Com sangue, pus e suor, escrevam com seus olhos como pintoras, com seus pés como dançarinas, ponham suas tripas no papel.” A partir dessa imagem de criação visceral, Aline conduz “Aldrava”, seu poema que gira em torno do verbo vingar e de suas camadas: o gesto de responder ao mundo e, ao mesmo tempo, o impulso de avançar.

Curador da FliParaíba e escritor, o português José Manuel Diogo reitera que a língua é um território, e não uma propriedade. “Não é do estado e nem do dicionário. Ela respira e repara ausências, silêncios e histórias quebradas. Defender a língua não é um gesto cultural, é político e espiritual”, argumenta. “Enquanto houver uma palavra viva a atravessar a boca do povo, nenhuma escuridão será infinita.”

Experiência e história

Natural de Formiga, em Minas Gerais, o premiado Silviano Santiago retorna a João Pessoa aos 89 anos, onde já lecionou, para fazer uma reflexão de caráter histórico. “Em uma terra dita descoberta e colonizada, temos de falar sobre cidadania. No século em que novas e diferentes escritas desconstroem o cânone da literatura, é indispensável entender lutas sociais”, disserta.

Debater literatura implica, segundo o mineiro, compreender a palavra como cidadania para que seus significados se tornem libertários em um mundo globalizado: “Séculos atrás, a língua teria recebido apenas o adjetivo portuguesa — europeia e colonialista, tendo sido imposta à força a vários e distintos povos de quatro outros continentes. Verbetes oriundos de línguas indígenas e de línguas africanas passam a pertencer ao dicionário brasileiro.”

Ao citar o poema “Evocação do Recife” (1925), de Manuel Bandeira, Santiago reforça que a antiga língua colonizadora foi sendo gradativamente recoberta pelas línguas marginalizadas dos indígenas trucidados e dos africanos escravizados através das suas respectivas lutas libertárias. Ele ilustra três dos valores mais fortes que democratizam as sociedades modernas: Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

“Bom dia, minha gente arretada”, é como Bernardina Freire inicia seu discurso, enfatizando que a memória e a literatura são necessárias para que a identidade de uma sociedade possa existir. “Não existe palavra sem voz e não existe voz sem história”, afirma. O cumprimento utilizado, explica, retrata raiz e vivências. “É preciso que essa identidade que orienta os processos educativos enraizados traga uma experiência humana. A educação meramente teórica precisa ouvir os territórios.”

Por isso, Bernardina cita Conceição Evaristo na reflexão que “nós somos memória”. “Não há uma humanidade possível sem a sustentação do imaginário. Se isso é verdadeiro, é pela língua que esse imaginário se sustenta. E portanto, é ela o chão simbólico, singular ao determinar corpos e territórios. Todas as pessoas têm direito à palavra.”

No terreno fértil da língua portuguesa, é destacada as variações regionais e a liberdade de dialetos. “Onde há língua, há corpos”, acrescenta. “A língua é corpo, resiste, respira e se transforma. Cada palavra que escolhemos diz algo sobre quem somos e quem queremos ser”, defende a diversidade linguística.
Das reflexões históricas de Silviano Santiago às afirmações de pertencimento de Aline Cardoso, passando pela visão espiritual e coletiva de José Manuel Diogo e pela defesa da memória feita por Bernardina Freire, emergiu um ponto comum: a palavra é um território compartilhado, em constante disputa e reinvenção. No festival, ela se afirmou como força de resistência, instrumento de cidadania e elo entre corpos, histórias e futuros possíveis. 

*A jornalista viajou a convite da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba


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